A criança interior ferida por Miguel Melo

A CRIANÇA INTERIOR FERIDA: UM PROBLEMA SOCIAL

A criança interior tem a ver com a criança natural e espontânea que todos nós já fomos. Ela corresponde ao núcleo mais íntimo do nosso ser. Ela se expressa pela capacidade de rir, de ser criativa, espontânea e capaz de ficar admirada com o mundo.

A nossa infância está marcada pela educação e diversas influências sociais recebidas na escola, na igreja, etc. Como adultos, somos condicionados por tais influências e elas determinam as nossas vidas. Se tivemos muitas restrições, punições ou feridas emocionais, a criança ferida pode parar de se desenvolver, se encapsular, e deixar de ser sentir liberdade de ampliar o gesto existencial. Repetimos muitos padrões familiares da infância nos nossos relacionamentos, nossas carreiras e nas nossas próprias famílias.

Encarar a criança interior requer coragem de querer transformar experiências e crenças negativas obtidas na infância e que afetaram negativamente a vida atual da pessoa. Quem experimentou rejeição na infância ou foi sempre criticado, depois de algum tempo, não terá mais nada a ver com a sua criança interior, porque, ela parece não ser digna de receber amor. Isso leva a um self demasiadamente duro, moldado ao estilo dos pais e que perpetua o julgamento negativo deles.

Os filhos que não foram fisicamente e emocionalmente bem cuidados, se tornam adultos com dificuldades de reconhecer e satisfazer as próprias necessidades além de se tornarem incapazes de cuidar adequadamente dos próprios filhos.

Como podemos ver, a problemática vai atravessar várias gerações, desembocando em negligência infantil, muitas vezes atendida por órgãos públicos de assistência social e órgão jurídicos. Tais serviços, muitas vezes, não conseguem perceber o caráter transgeracional dessa problemática.

Portanto, tratar a criança interior ferida, é uma questão da natureza de saúde pública e uma prevenção dos maus-tratos infantis que tende a ocorrer em mais de uma geração familiar, por causa de adultos que foram crianças negligenciadas.

Na constelação, as crenças negativas que recebemos dos pais ou de figuras influentes, precisarão ser renunciadas, assim como as crenças que decorrem de vivências infantis ou da falta de infância, mas que podem ser resolvidas por meio de reconhecimento consciente.

Em tais constelações, não raro aparecem afirmações de exigências de perfeição, tal como: “não adianta fazer porque você não faz direito o suficiente!" Ou projeções destrutivas do tipo: "você é burra e não faz nada direito!". Ou frases de negligência emocional: "não mereço ser amada".

Em suma, as crianças que não receberam cuidados físicos e emocionais suficientemente bons, quando adultas, terão dificuldades em reconhecer e satisfazer as próprias necessidades. Se elas não forem curadas, continuarão aprisionados em padrões de dependência, fracasso e vitimização. Isso é um problema individual que tem  repercussões sociais pois afetará o cuidado que terão com os próprios filhos.

AUTOR: Miguel Mello, psicólogo, psicanalista, constelador familiar.

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