Vínculos Invisíveis por Sílvia Rocha


Vínculos Invisíveis

“Enquanto trabalhava em minha árvore genealógica, compreendi a estranha comunhão de destinos que me ligava aos meus antepassados. Tenho a forte impressão de estar sob a influência de coisas e problemas que foram deixados incompletos e sem resposta por parte de meus pais, meus avós e outros antepassados.” C. G. Jung

 

                Um casal já havia se casado há anos, mas não moravam juntos. O homem só arrumava trabalho em outro estado, o que o tirava de sua convivência familiar. Sempre que era questionado sobre procurar um trabalho na mesma cidade que sua mulher, este dizia que não existia e que não adiantava procurar. Aconteceu na infância desse homem, uma doença na família. Seu pai teve uma tuberculose grave fazendo-o ficar internado e sem possibilidade de contato com sua mulher e filhos sob risco de contágios. 

                Uma mulher talentosa por mais que trabalhasse, não conseguia ver a cor do dinheiro. Se estivesse próxima ao sucesso arrumava um jeito de se boicotar e perdia tudo que conquistara. Num exame de sua ancestralidade contou que duas avós haviam sido escravizadas, com perda de sua liberdade, sem receber qualquer remuneração ou reconhecimento por seu trabalho.

                Um homem com dificuldades de falar em público, perdeu seu avô que era militar, quando este ensinava seus alunos a desarmar uma bomba e teve seu pescoço destroçado.

                Uma moça que não conseguia se aproximar de sua filha que morava com o pai, em sua infância passou anos morando em outro estado na casa dos avós, longe de sua mãe devido a problemas financeiros de sua mãe.

                Um rapaz que sempre se metia em confusão e brigas, sentia-se indignado com desejos de vingança e sem saber o porquê, teve em sua ancestralidade, parentes mortos em campos de concentração nazista.

                Uma mulher que queria se casar, mas não conseguia, levantou em sua pesquisa biográfica 3 tias que morreram solteiras.

                Vínculos invisíveis são exemplificados nessas historias.  Comportamentos e até sentimentos que se repetem inconscientemente como forma de lealdade ao sistema familiar a que pertence. Assuntos pendentes, questões que não foram resolvidas, pessoas que foram excluídas ou não foram homenageadas ou honradas devidamente acabam influenciando as gerações seguintes.

                Os povos nativos já sabiam disso e dizem que sete gerações antecessoras nos influenciam e nós iremos influenciar sete seguintes. O biólogo inglês Rupert Sheldrake, estudou esse campo dotado de saber e o nomeou campos mórficos. Trata-se de uma totalidade abrangente, um campo perceptual disponível, mas muitas vezes inconsciente. “Toda estrutura, seja uma organização, um organismo ou um sistema, vive num campo mórfico que atua como uma memória onde estão armazenadas todas as informações importantes do sistema. Portanto, todos os elementos individuais como partes do todo estão em ressonância com o todo. Cada parte dessa estrutura, portanto, cada membro desse sistema ou cada indivíduo de uma organização participa do conhecimento sobre o todo e de todos os acontecimentos importantes. Nesse sentido, a memória não é observada como uma função ou uma conquista pessoal de nosso cérebro, mas como um “campo de memória”, no qual nos movimentamos como um rádio, no meio das ondas radiofônicas.” (FRANKE)

                Sheldrake diz que é mais fácil perceber a existência desse campo, quando sentimos que alguém está nos olhando por trás e então nos viramos para olhar na mesma hora. Estamos mergulhados em campos de energia que se comunicam através de ressonância, a que ele chamou de ressonância mórfica, assim informações podem ser veiculadas entre campos para além do espaço e do tempo como ondas de um celular.

                                Na terapia familiar sistêmica, pode-se acessar esses campos através de técnicas terapêuticas como a constelação familiar sistêmica criada pelo alemão Bert Hellinger. Num trabalho de grupo colocam-se pessoas para representar os parentes do cliente. “É surpreendente como os representantes conectam-se com este campo de força trazendo o conhecimento e a realidade da família sem nem ao menos terem algum conhecimento prévio da família. Alguns representantes chegam a sentir sintomas físicos da pessoa que está representando.” (Hellinger)

                Quando esses vínculos invisíveis tornam-se claros, é possível transformar a homenagem inconsciente feita através da repetição de padrão comportamental em homenagem mais consciente, sendo assim desnecessário continuar com aquele comportamento, libertando e possibilitando novas escolhas de vida. É interessante como pessoas que possuem valores éticos acabam por serem impelidas a cometerem ações contra esses valores, movidas por uma carga energética de seus antepassados. Hellinger costuma falar que “em família de ladrão, quem não rouba se sente culpado”. E para se sentir pertencendo ao sistema familiar precisa repetí-lo. Outras pessoas acabam por trair seus parceiros para homenagear ancestrais que fizeram o mesmo.  É muito forte o magnetismo do campo familiar. Nas culturas nativas e também na cultura oriental é comum fazer reverência e homenagens aos ancestrais. São deles que vem a força de vida.

Para reestruturar um sistema que está com esses emaranhamentos e repetições, Hellinger criou frases e gestos-rituais para poder a pessoa “se soltar” desses vínculos invisíveis. Todas elas em síntese remetem à gratidão pela vida dada pelos ancestrais e em gestos como se curvar com muito respeito e em homenagem.

                Pequenos gestos que promovem uma cura, uma reconciliação entre pessoas da família e libertam descendentes de repetirem destinos difíceis. Reverenciar ancestrais nos permite perceber que a vida vem de muito longe e o quanto ela é querida e sagrada, merece ser bem vivida e se fazer algo de bom, enquanto estiver em nossas mãos.

Sílvia Rocha – Psicóloga Transpessoal Junguiana, crp:05/21756

Arteterapeuta e consteladora familiar sistêmica

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Vínculos do Destino por Bert Hellinger

Oração aos ancestrais